‘Poderia ter sido eu’: ex de acusado de matar enfermeira em Fortaleza relembra relação abusiva

Matheus Anthony Lima Martins Queiroz será julgado na segunda-feira (13) pelo feminicídio de Clarissa Costa Gomes.

Escrito porLuana Severoluana.severo@svm.com.br

Um ano atrás, no dia 9 de julho de 2025, quando se espalhou a notícia de que a enfermeira Clarissa Costa Gomes havia sido morta a facadas pelo ex-namorado, o técnico em gestão ambiental Matheus Anthony Lima Martins Queiroz, Carol (nome fictício) sofreu um baque imediato: “Poderia ter sido eu”, constatou.

A mulher, que terá sua identidade preservada, é uma ex-namorada do acusado. Ela aceitou conversar com o Diário do Nordeste sobre o antigo relacionamento.

Matheus será julgado pelo feminicídio de Clarissa na próxima segunda-feira (13), no 2º Tribunal do Júri da Comarca de Fortaleza, no Fórum Clóvis Beviláqua.

Embora não conhecesse Clarissa pessoalmente, Carol soube quando a enfermeira e seu ex-namorado começaram a se relacionar e admite que acreditou que ele poderia “melhorar” estando com outra pessoa.

Matheus Anthony é réu pelo feminicídio de Clarissa Costa Gomes.

Legenda: Matheus Anthony é réu pelo feminicídio de Clarissa Costa Gomes.

Foto: Reprodução.

“Fiquei em pânico, devastada, apesar de não conhecê-la. E o primeiro pensamento foi: ‘poderia ter sido eu’. […] Mas não posso dizer que senti alívio porque outra família, infelizmente, sentiu dor”, compartilhou ela.

Matheus Anthony aguarda julgamento detido na Unidade Prisional de Aquiraz (UP-Aquiraz). Ao fim do último mês de junho, os advogados que faziam a defesa dele renunciaram, alegando que a família não teria mais condições financeiras de arcar com os honorários. Dias depois, o réu solicitou atendimento da Defensoria Pública do Estado (DPCE) para a sua defesa técnica no júri.

Relacionamento marcado por abusos

Quando Clarissa morreu, veio à tona que ela vivia um relacionamento abusivo com Matheus pelos quase dois anos que passaram juntos. Amigas da vítima relataram que aconselharam a enfermeira a terminar o namoro, principalmente quando ela passou a ser impedida de frequentar determinados lugares sem ele.

No relacionamento com o autor do feminicídio, Carol também foi barrada de visitar amigos e familiares sem a presença do namorado. “[Ele] Queria controlar o que eu vestia, com quem eu falava, até mesmo da minha família tinha ciúme. A gente sempre brigava”, narrou.

O namoro foi marcado por abusos psicológicos e verbais.

Legenda: O namoro foi marcado por abusos psicológicos e verbais.

Foto: Ismael Soares.

Para garantir que a namorada cedesse às suas vontades, ele dizia, segundo ela, que se sentia sozinho. “Cheguei a me afastar de amigas durante algum tempo. Inclusive, elas sempre me alertaram que ele não era boa pessoa para mim. Só que a gente, boba, apaixonada, acaba não percebendo”, lamentou Carol.

As “chantagens emocionais” foram tantas que a mulher disse que se acostumou a fazer concessões e que isso havia se tornado o seu “novo normal”.

Outra situação que teria sido “normalizada” por Carol teria sido o fato de o namorado não se fixar em um emprego e depender financeiramente dela em algumas ocasiões, ainda que ela não tivesse muito a oferecer. “Eu sempre ajudava no que podia, insistia para ele trabalhar, porque ele sempre dizia que tinha muitos sonhos, mas eu sempre acreditei que a gente só consegue as coisas com muito trabalho”, lembrou.

Hoje, Carol reconhece que sofreu violência psicológica, moral e patrimonial no relacionamento.

Ex-namorado a prendeu no quarto e quebrou itens pessoais

Um dos episódios que Carol acredita que tenha sido dos mais violentos que sofreu aconteceu durante uma briga movida por ciúmes. Matheus, segundo ela, teria chamado a companheira de “vagabunda” e a acusado de infidelidade. Irritado, ele teria quebrado seus itens pessoais e a trancado no próprio quarto.

Teve uma situação que acho que foi o auge, e mesmo assim, perdoei, mas, se eu tivesse a maturidade que tenho hoje, não perdoaria. Um amigo falou de uma forma carinhosa comigo, ele acabou mexendo no meu celular, viu e simplesmente surtou. Me chamou de vagabunda, disse que eu traí ele, sendo que eu nunca traí, muito pelo contrário, ele que sempre me traía. Acabou quebrando coisas minhas no chão, me trancou no quarto dele, mas não me agrediu fisicamente, só mesmo com palavras, até que teve um momento que consegui sair do quarto”.Carol

Nome fictício

Embora outras pessoas estivessem na casa, ela lembra que ninguém se mobilizou para ajudá-la. O trauma a persegue ainda hoje e afeta seus relacionamentos.

Apesar disso, àquela época, Carol não acreditava que Matheus pudesse agredi-la fisicamente, mas notava que ele era agressivo nas atitudes e palavras. “Ele dizia que se não fosse ele ninguém ia me querer e que só ele para me aguentar”, recorda a mulher.

Prometia ‘mudar’ e ameaçava tirar a própria vida

Segundo a ex-namorada, todas as vezes que discutia com Matheus, e principalmente após descobertas de traições, ele admitia que havia errado e prometia “mudar”. Diante da possibilidade do rompimento, ele implorava para que Carol não o deixasse e ameaçava tirar a própria vida se ela tomasse a atitude.

“Ele sempre vinha com a desculpa de que ia mudar. Todas as vezes que a gente brigava, algumas traições que eu descobria, ele sempre falava: ‘eu errei, eu vou mudar, não me deixa, se você me deixar eu vou me matar’. Isso acabava me prendendo”, reconheceu a jovem. 

Quando, finalmente, por decisão dele, eles terminaram, ela disse que as amigas ficaram aliviadas. “Meus pais, nem se fala. Para eles, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Eles sempre alertaram, minhas amigas também. […] Até minha psicóloga falou: ‘você consegue ver que não está saudável?'”.

“O último término partiu dele, mas a decisão de não voltar mais partiu de mim”.Carol

Nome fictício

Quando Matheus começou a namorar Clarissa, ela lembra que comentou com amigos que esperava que o ex-namorado fosse feliz. “A gente sempre espera que o outro mude. […] Quando recebi a notícia [da morte dela], fiquei impactada. Apesar de não conhecê-la, eu tinha certeza que era uma pessoa maravilhosa. Uma frase que um amigo dele falou para mim: ‘ele tem sorte com namorada'”, citou.

‘Ele não queria correr o risco que ninguém abrisse os meus olhos’

O assassinato de Clarissa chocou tanto Carol que ela decidiu expor detalhes do seu relacionamento com Matheus para alertar sobre os riscos de relações abusivas e a forma sutil como os agressores, muitas vezes, conseguem que as mulheres se calem.

“Sempre escute amigos, família, não se cale. Sempre compartilhe. Uma coisa que ele [Matheus] sempre me falava era que não queria que comentasse do nosso relacionamento com ninguém. […] Ele não queria correr o risco que ninguém abrisse os meus olhos em relação à forma como me tratava”, compreendeu.

Réu vai a júri pelo feminicídio de enfermeira

Matheus sentará no banco dos réus na próxima segunda-feira (13), a partir de 8h30, quando será julgado pelo feminicídio de Clarissa. O Conselho de Sentença, formado por jurados populares, decidirá se condena ou absolve o acusado em sessão no Fórum Clóvis Beviláqua, presidida pelo juiz da 2ª Vara do Júri. 

Cerca de duas semanas atrás, os advogados que faziam a defesa do técnico em gestão ambiental renunciaram, alegando que a família não tinha mais condições de arcar com os honorários. Por causa disso, foi designado um defensor público para elaborar a defesa técnica dele.

Relembre o caso

Clarissa Costa Gomes, 31, que trabalhava como enfermeira no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), foi morta com 34 facadas exatamente um ano atrás, na noite de 9 de julho, no bairro Jardim Cearense. O crime foi cometido pelo ex-namorado dela, Matheus, que foi preso em flagrante na Maraponga.

À época, o Diário do Nordeste apurou que o assassinato teria sido motivado pela não aceitação, por parte do homem, do fim do relacionamento.

O caso chocou familiares de Clarissa, que não sabiam que ela sofria ameaças do namorado. Entretanto, amigas da enfermeira relataram que, poucos meses antes do crime, começaram a suspeitar que a jovem estivesse imersa em um relacionamento abusivo.

Clarissa trabalhava como enfermeira no HGF.

Legenda: Clarissa trabalhava como enfermeira no HGF.

Foto: Reprodução.

Entre os sinais mais claros do abuso, estavam o impedimento de sair sem o agressor e ameaças dele de atentar contra a própria vida ou a da enfermeira se ela não atendesse a uma exigência sua.

O caso teve repercussão nacional, especialmente após a campeã do Big Brother Brasil 21, Juliette Freire, ir às redes sociais contar que era amiga da vítima e pedir justiça pelo caso.

“Esfaqueada 34 vezes pelo seu primeiro namorado: foi assim que perdi minha amiga Clarissa. E dói falar dessa forma, soa agressivo. Mas, sabe o que pode ser ainda mais violento? O nosso silêncio”, discursou Juliette, acrescentando se sentir impotente a cada nova notícia de casos de agressões e feminicídios.

Fonte:https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *