Conjunto de prédios no Benfica entra em processo de tombamento em Fortaleza; veja quais

Edifícios são os primeiros exemplos da arquitetura moderna na Capital e pertencem sobretudo à UFC.

Escrito porDiego Barbosadiego.barbosa@svm.com.br

capa da noticia
ícone do whatsapp

Alguns dos prédios que você vê, conhece ou até mesmo utiliza no bairro Benfica, em Fortaleza, podem se tornar bens tombados. A iniciativa é do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Histórico-Cultural (Comphic), vinculado à Secretaria Municipal da Cultura (Secultfor).

Entre as pautas da mais recente reunião do Conselho, realizada na última quarta-feira (15), esteve o ato de notificação de tombamento do Conjunto Modernista do Benfica.

Edificado entre os anos 1950 e 1960, o agrupamento de edifícios compreende equipamentos como:

  • anexos da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC)
  • Residência Universitária
  • Departamento de Ciências Sociais
  • prédio do curso de Comunicação e de Ciências da Informação
  • Pavilhão Reitor Martins Filho, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo

Todos são exemplos do marco inaugural da implementação da arquitetura modernista na capital cearense.

Em nota, a Secultfor explica que o pedido de tombamento partiu de docentes do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC. A Pasta contextualiza que o ato de notificação de tombamento é uma “comunicação formal feita ao proprietário de um bem móvel ou imóvel, ou ao responsável dele, informando que esse bem está sendo submetido ao processo de tombamento”.

O ato ocorre no início do tombamento, logo após a abertura formal do processo e antes da decisão definitiva sobre o acautelamento – esta tomada após elaboração de estudos históricos, culturais e artísticos cabíveis. Elas devem compor a Instrução de Tombamento.

https://www.instagram.com/p/Da0l20ClICZ/embed/captioned/?cr=1&v=14&wp=540&rd=https%3A%2F%2Fdiariodonordeste.verdesmares.com.br&rp=%2Fceara%2Fconjunto-de-predios-no-benfica-entra-em-processo-de-tombamento-em-fortaleza-veja-quais-1.3777726#%7B%22ci%22%3A0%2C%22os%22%3A1591.5999999996275%2C%22ls%22%3A346.59999999962747%2C%22le%22%3A536.5%7D

Após assinatura do proprietário ou representante legal do bem, o documento é anexado ao processo administrativo de tombamento como comprovação da ciência formal do interessado.

Na sequência, o processo avança para a elaboração da Instrução de Tombamento. Se aprovado pelo Comphic, seguirá para a assinatura do chefe do Executivo e publicação do decreto de tombamento. Com esse ato, o tombamento se torna definitivo.

Características dos prédios

Professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, Romeu Duarte destaca a importância do Conjunto Modernista do Benfica. Segundo ele, representa a contribuição de um pequeno grupo de arquitetos formado por Ivan da Silva Brito, José Armando Farias, José Liberal de Castro e Neudson Braga, formados no Rio de Janeiro e em Recife e ligados à UFC. 

“A formação acadêmica deles deu-se no âmbito da chamada Escola Carioca, muito influenciada pelo traço do arquiteto franco-suíço Le Corbusier e pelos ensinamentos de Lúcio Costa, autor do projeto de Brasília”, diz.

Assim, a arquitetura do Conjunto Modernista destaca-se pela simplicidade, economia de meios e a geometria rigorosa e racional, sem qualquer adorno, trabalhando os cheios e vazios, valorizando os jogos de luz e sombra e os materiais naturais.

Criação da Universidade Federal do Ceará representou um alento para o panorama arquitetônico da cidade.

Legenda: Criação da Universidade Federal do Ceará representou um alento para o panorama arquitetônico da cidade.

Foto: Divulgação/UFC.

Esse modo de pensar e conceber edifícios, produzido por arquitetos pioneiros da cidade, eram professores das escolas de Arquitetura e Engenharia da UFC. Também atuavam no Departamento de Obras da Universidade – a que forjou as primeiras turmas da escola e, de certa forma, é a mãe da arquitetura que hoje se produz em Fortaleza

A presença dela ainda pode ser apreciada em algumas residências das décadas de 1960 e 1970, em bairros como Aldeota, Meireles, Bairro de Fátima, Dionísio Torres e em muitos edifícios públicos e privados construídos no período, tais como o Palácio Progresso e o Palácio Coronado, no Centro, além da Assembléia Legislativa”, enumera Romeu.

Fato é que a UFC, por meio do fundador da instituição, professor Antônio Martins Filho, utilizou a linguagem modernista como imagem de modernidade e progresso para a então nascente universidade. Não à toa, essa linguagem simboliza um sentimento de inovação e novidade num momento em que a cidade não tinha uma escola de arquitetura – criada apenas em 1965 – nem arquitetos formados. 

“Tombar o conjunto modernista é necessário como forma de valorizar o trabalho dos nossos pioneiros e uma linguagem arquitetônica inovadora que marca um importante momento da cidade de Fortaleza. É modo também de estancar a destruição e a descaracterização do acervo modernista em nossa capital”Romeu Duarte

Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC

Ele ainda reforça que as pesquisas serão encaminhadas à Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por serem de comum entendimento de que os bens imóveis colocaram o Ceará no mapa do modernismo estadual e brasileiro.

A reportagem questionou à UFC se a Universidade já foi notificada do ato de tombamento e como avalia a decisão, dados os usos rotineiros dos espaços para atividades pedagógicas e administrativas, mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria.

Pauta não é de hoje 

Debates acerca desse assunto não são novidade. Há 12 anos, quando da publicação do livro “Arquitetura Moderna: campus do Benfica” pela UFC, três autores – Romeu Duarte, Clóvis Jucá e Ricardo Fernandes – assinaram um capítulo inteiramente dedicado ao tema. 

Logo no início, o texto informa que, entre os anos de 2008 e 2009, o Departamento de Arquitetura e Urbanismo da universidade, em convênio com o Iphan-CE, realizou o inventário dos edifícios representativos dos primórdios da Arquitetura Moderna Cearense.

Ao todo, 24 edificações em Fortaleza foram inventariadas – 11 edifícios públicos ligados à UFC, localizados no campus do Benfica, e 13 residências. Conforme os autores, a produção arquitetônica foi marcada pelo súbito aumento populacional de Fortaleza e da expansão urbana da Capital, verificados sobretudo na década de 1960.

“Até meados do século XX, não se pode falar, no Ceará, de uma arquitetura cearense fruto da produção de arquitetos. Predominava a atuação de leigos, a maioria deles desenhistas, que trabalhavam no mais das vezes em parceria com engenheiros civis”, escrevem.

Outro destaque da pesquisa é explicar que a criação da UFC, em 1954, representou um “alento” para o panorama arquitetônico da cidade. O reitor à época, Antônio Martins Filho, firmou compromisso com as transformações modernizadoras da nação, associando a importância de uma rede de universidades públicas e gratuitas comprometidas com um projeto de desenvolvimento para o Brasil.

Dentre outros projetos modernistas, são desse período a maioria dos edifícios do Campus do Benfica da UFC, o Edifício Palácio Progresso (1961), o Anexo do Colégio Cearense (1967), além de várias residências unifamiliares.

Formas dos prédios e constantes intervenções

Ainda de acordo com o livro, os princípios de racionalidade, funcionalidade, eficiência técnica, economia de meios e ênfase na dimensão social da arquitetura – próprios da perspectiva moderna – deram o tom dos prédios do campus do Benfica da UFC.

Clareza das plantas baixas, limpeza na volumetria e adaptação ao contexto social da capital cearense do período foram diretrizes dos projetos. Anos depois, o impacto: inúmeras intervenções nas edificações. 

“Se hoje são raras as unidades representativas do Ecletismo arquitetônico ou da arquitetura protomoderna nos espaços urbanos de Fortaleza, a modernidade arquitetônica parece estar fadada a desaparecer do espaço fortalezense”, percebiam os autores já naquela época.

“Na maioria das vezes, empreendedores imobiliários, na corrida desenfreada pelo capital e insensíveis à dimensão cultural do patrimônio moderno construído, privam a paisagem urbana da tradição modernista. Noutras situações, as ações são encabeçadas pelo próprio estado. E assim, residências, clubes, prédios institucionais com traços modernos desaparecem do espaço da cidade”.

No livro, foram mencionadas intervenções nos seguintes espaços, concebidos com arquitetura modernista:

  • Imprensa Universitária, projetada pelos arquitetos José Liberal de Castro e José Neudson Bandeira Braga;
  • Antiga Escola de Engenharia, atual sede do Curso de Comunicação e de Ciências da Informação, projetado pelo engenheiro Luciano Pamplona;
  • Antigo Departamento de Cultura, atual Pró-Reitoria de Extensão, projetado pelo arquiteto José Liberal de Castro;
  • Pavilhão Reitor Martins Filho – Departamento de Arquitetura e Urbanismo, projetado pelos arquitetos Gerhard Bormann e Nícia Paes Bormann;
  • Atuais anexos da Reitoria da UFC e Cursos do Departamento de Ciências Sociais, projetados pelo arquiteto José Liberal de Castro;
  • Centro de Estudantes da Universidade.

Por fim, os autores sublinham: “A despeito das intervenções, excetuando-se a antiga Escola de Engenharia e o edifício do antigo CEU, lembramos que os demais edifícios do Campus do Benfica ainda apresentam a estrutura formal que lhes conferiam identidade na década de 60 do século XX, o que facilita os projetos de restauro e conservação. Também o resgate dos desenhos originais pelo Inventário da Arquitetura Moderna Cearense contribui para as possíveis restaurações dos edifícios”.

Fonte:https:https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *